As séries que você acompanha e a indústria cultural

Quando eu era criança, quando pensávamos em  séries de TV estávamos nos referindo a um pequeno grupo de programas, quase todos exibidos pelo SBT e, em sua maioria, de comédia: Um Maluco no Pedaço; Eu, a Patroa e as Crianças; Punky, a levada da breca, Arquivo X. De vinte anos pra cá, esse gênero audiovisual ganhou investimento, espaço e o carinho dos espectadores e internautas, gerando lucros gigantescos e atingindo um número cada vez maior de pessoas, de todas as idades. É evidente que seu modelo de produção e distribuição atende a alguns propósitos tradicionais da indústria cultural – principalmente o lucro -, mas acredito que as séries mereçam uma reflexão um pouco maior sobre seu público, sua função social e suas possibilidades de impacto.

punky

Os primeiros gigantes do gênero talvez tenham sido Lost, exibido pela estadunidense ABC a partir de 2004; 24 Horas, lançado em 2001 e com nove temporadas gravadas; e Grey’s Anatomy, com doze temporadas a contar de 2005. Entre os anos de 2008 e 2010, o faturamento em propaganda desses produtos estava entre dois e três milhões de dólares a cada trinta minutos. Os custos também não eram nada pequenos: o projeto piloto de Lost custou 12 milhões, mas o investimento de risco valeu a pena. E essa história longa e multifacetada, cheia de flahsbacks e flashforwards, já foi identificada por muitos como parte importante da transformação no papel do espectador.

A aventura dos sobreviventes de um desastre de avião em uma ilha começou a construir um mundo de coparticipantes online. No momento em que estava se tornando quase impossível conter o avanço do conteúdo compartilhado na internet, Lost deixou a difusão acontecer, criando redes de interesse que variavam entre grupos de jovens que faziam legendas em uma velocidade incrível até fóruns de discussão. Ninguém queria esperar para assistir ao seriado dublado na TV, nem ter que ver o episódio na hora em que a emissora decidia transmitir: a internet avolumava sua figura, e levava certa autonomia para o espectador.

A miríade de séries que se seguiram apenas confirmava a relação estrondosa custo X lucro. É claro que nem todas deram tão certo quanto se esperava – Roma, por exemplo, foi encerrada na segunda temporada porque não dava retorno suficiente, tendo sido, até 2006, a produção mais cara do tipo. Mas esse gênero extremamente aberto estava na vanguarda na transição, ainda em andamento, da TV para o computador e do HD para o streaming. A Netflix, conhecida e adorada mundialmente, começou como uma empresa de entrega de DVD’s  nos EUA e hoje tem 75 milhões de assinantes pelo mundo. Com a produção das explosivas House of Cards e Orange Is The New Black, o conteúdo original do site passou a ocupar papel fundamental nos lucros e na expansão da empresa. Sobre essa paixão mundial, voltaremos a falar mais adiante.

 Cumpre agora compreendermos melhor o que Theodor Adorno e Max Horkheimer, filósofos da Escola de Frankfurt, chamaram de Indústria Cultural. Para eles, a difusão dos meios de comunicação de massa – o rádio e a TV, na época – processaram uma grande homogeneização dos programas e, consequentemente, dos gostos. A padronização de roteiros, personagens e cenários construía um campo comum de entretenimento a ser consumido, e minava a possibilidade do espectador de refletir sobre as obras. Nas palavras do autor, a programação dos meios de massa “impede a formação de indivíduos autônomos, independentes, capazes de julgar e decidir conscientemente”, já que a repetição extensa de clichês, abrilhantada pelo fascínio das tecnologias de informação, criava espectadores dóceis.

adorno horkheimer

Toda a ótica desse espetáculo estaria vinculada ao entretenimento, valor que assumiu o espaço principal da cultura. Se antes a cultura erudita – que pressupunha reflexão e trabalho técnico – se opunha às populares – profundamente marcadas pela sua origem e representativas de um modo de vida -, a indústria cultural toma de ambas elementos e ideias para construir produtos massificados e vendáveis, que acima de tudo divirtam. Não cabe aqui uma análise extensa sobre como o contemporâneo sente, o tempo todo, necessidade de ser entretido; mas o desejo da diversão em detrimento da atenção profunda é severamente criticado pelos filósofos:

“Eis aí a doença incurável de toda diversão. O prazer acaba por se congelar no aborrecimento, porquanto, para continuar a ser um prazer, não deve mais exigir esforço e, por isso, tem de se mover rigorosamente nos trilhos gastos das associações habituais”.

O sentido básico dessa diversão seria promover a impotência dos espectadores, naturalizar o que está sendo vendido, fazê-lo abrir mão, espontaneamente, da possibilidade de refletir sobre o que se vê. Essa indústria não está preocupada em modificar a sociedade e romper a previsibilidade: ao contrário, ela deseja a manutenção plena no status quo e, quando modificações acabam por aparecer, são normalmente para atender a anseios de um público que já se cansou de um determinado modelo.

(Pense, por exemplo, na exibição do beijo gay pela Globo, em 2014. Em tese, a primeira cena do gênero foi gravada para a novela América, em 2005, mas o público, em resposta a uma pesquisa da emissora, demonstrou não querer vê-la. A pesquisa de Amor à Vida, ao contrário, resultou positiva, encorajando o canal. O beijo nunca foi um meio de dar visibilidade ou de comprar uma briga política: foi o caminho que geraria mais audiência e lucro)

cafe da manha
Nos belos cafés da manhã das novelas da Globo, já repararam que ninguém come nada?

Seria possível deslindar páginas e páginas sobre o trabalho calculado dos compositores, calcado em pesquisas que indicam sons mais repetitivos e em ritmos que ficam presos à cabeça,  sobre o modelo padrão de novelas da rede Globo e sobre os filmes de mocinho e bandido estadunidenses. Deixo apenas uma informação e uma reflexão: 95% dos brasileiros afirmam assistir à televisão, com uma média de 4h31 por dia durante a semana e 4h14 nos finais de semana, mas apenas 23% dos usuários prestam atenção unicamente ao televisor. Comer, acessar a internet, fazer tarefas domésticas são ações executadas concomitantemente ao uso, revelando como os programas não exigem atenção completa e fluem sem complicações diante dos olhos acostumados aos padrões da indústria cultural.

Voltemos às séries. Seria possível dizer que elas se incluem, sem ressalvas, no âmbito da domesticação dos gostos e da manutenção dos valores da sociedade? É possível deixar House of Cards ou Sense8 ligados enquanto passamos roupa? O conteúdo encerra-se em si mesmo, sem deixar espaço para reflexão e com níveis de previsibilidade claramente demarcados? Vamos pensar sobre alguns desses tópicos:

a) Enredo e previsibilidade: No final do filme, o mocinho salva a mocinha e derrota o bandido, e nas novelas da Globo, os ricos do Leblon têm conflitos inquietantes enquanto os pobres fazem churrasco. E nas séries? É possível encontrar padrões previsíveis em sua composição? Um dos fenômenos mais comentados de Game of Thrones, por exemplo, é o fato de que personagens que pareciam fundamentais simplesmente morrem, “sem aviso”. As reviravoltas são tantas que o espectador chega a ficar em dúvida sobre quem deseja que alcance o poder. Além disso, seus personagens são esféricos (round), ou seja, mudam de pensamento, são corrompidos pelo poder, tornam-se pessoas melhores, trocam completamente de vida, ao contrário dos personagens chatos (flat) encontrados na indústria cultural televisiva.

Entre muitos exemplos, a ousadia de algumas mortes em Dexter (ainda um seriado sutil no sentido da complexidade do enredo) e a impossibilidade absoluta de saber o que acontecerá no episódio seguinte de Vikings confirmam: os enredos múltiplos e entrecortados de Lost realmente conquistaram um novo público, sendo cada vez mais complexificados e exigindo do espectador uma atenção integral para sua compreensão. Se você for ao banheiro em qualquer momento dessas séries, você não entende mais nada. E essa particularidade é cada vez maior nas produções mais recentes.

game_of_thrones

Inegavelmente, o trabalho mental do novo espectador é intensificado, já que não dá pra identificar o mocinho e bandido e esperar o desenlace. Aliás, há uma construção de enredo e de personagens que abusa dos anti-heróis e das mudanças bruscas na nossa identificação pessoal: quem não é tomado por simpatia pelo Pablo Escobar de Narcos ou quem não começa a desprezar o primogênito da casa Stark em Game of Thrones atire a primeira pedra.

b) Variabilidade e autonomia: Há muitas, muitas séries online, sobre centenas de assuntos e mundos. A não ser que você viva para isso, parece impossível acompanhar todas; mas não queremos fazê-lo. Queremos assistir àquelas que nos interessam, na hora em que estamos disponíveis. Não me interesso por muitas delas, e as que chamam minha atenção já precisam ser vistas com parcimônia para que seja possível dormir; mas nada paga a possibilidade de resolver tudo o que deve ser feito e assistir ao seu seriado 22h, 23h, 00h ou ainda mais tarde, se você é uma criatura da noite.

A variedade imensa de possibilidades cria nichos de espectadores e culturas múltiplas. Não vemos mais o país inteiro comentando sobre o final da novela; vemos grupos de afinidade que se arrolam em torno das suas opções e interesses, em franca expansão de gostos e desejo pelo novo. A aldeia global abre brechas em si mesma: conexão com o resto do mundo não precisa significar a mesma coisa para todos.

c) Conexão com o mundo e o despertar do desejo de aprender: muitos seriados se debruçam sobre questões históricas, sociais e culturais fascinantes, sem processar a domesticação romanceada de Caminho das Índias e novelas do gênero. Roma, The Tudors, Marco Polo e Vikings, embora com claros afastamentos da narrativa histórica tradicional, trazem elementos interessantes de culturas fora do escopo do nosso costume, com muito mais vivacidade do que regularmente fazem os outros gêneros audiovisuais. A experiência fantástica de Sense8 processa o mesmo: a parada gay de Los Angeles, o tráfico e a falsificação de medicamentos na África, a sociedade machista e opressora da Coréia, as marcas da cultura indiana estão todas conectadas em seus episódios, em que mesmo aspectos cênicos típicos da indústria cinematográfica desses países são mimetizados.

tudors

House e Grey’s Anatomy popularizam, mesmo que a toque de caixa, certas discussões e termos da medicina; Breaking Bad acaba por deixar curiosidades sobre química na cabeça; Black Mirror nos obriga a refletir sobre os possíveis percalços de um mundo que intensifica sem medidas o uso de tecnologias. E o incrível House of Cards nos dá vontade de estudar política, comparar a brasileira com a estadunidense e desenvolver maior senso crítico – além de envolver questões extremamente delicadas como a deep web e os abusos do FBI. Ver seriados dá vontade de aprender mais.

d) Afastamento do status quo e visibilidade: Enquanto os pais conservadores desligam os televisores para que a família não veja o beijo gay, seus filhos trancam as portas dos quartos e assistem a sexo homoafetivo e ménages em Game of Thrones. Aliás, em termos de sexualidade, a Netflix é provavelmente a campeã da desconstrução: as relações não tradicionais, tanto do ponto de vista dos papéis dos gêneros quanto da orientação sexual, são demonstradas sem nenhum pudor. A realidade ganha visibilidade. (SPOILER) A bissexualidade de Frank e a relação sexual entre ele, seu segurança e sua esposa é um dos pontos altos dessa faceta em House of Cards, que também conta com um chinês sadomasoquista e com duas mulheres que têm a primeira relação sexual entre si depois que uma delas está cantando um hino da igreja (FIM DO SPOILER).

netflix-logo
Como não amar?

A visibilidade que os originais Netflix tem dado a grupos minoritários começa na inserção da transexual em Orange Is The New Black e alcança o ápice em Sense8, em que há dois casais homoafetivos: um deles é composto por homens mexicanos, e o outro, por duas mulheres, uma delas trans. Tais personagens, com suas vidas devassadas uns pelos outros pela conexão que possuem na série, realiza conosco, espectadores, um movimento essencial no que diz respeito ao desenvolvimento da empatia: é uma série densa, com muitos sentimentos, em que é difícil assistir ao quarto episódio e passar para o quinto sem ter que parar para tomar uma água e respirar. É uma aula sobre a vida, a dor, as alegrias e as angústias do outro. É uma violência contra o status quo e uma esperança de libertação para os espectadores.

Por causa de tudo isso, acho possível pensar a série como espaço possível de desterritorialização da indústria cultural: um espaço híbrido, em que o objetivo do lucro e parte da padronização esperada estão lá, mas que tem características peculiares que se colocam em contraste com a tendência de domesticação do consumidor. Parece haver um compromisso com a qualidade e com a diversificação: a Netflix, a partir de agosto de 2013, passou a investir todo o lucro em território estadunidense na expansão global do serviço e na produção de conteúdo. Mesmo com o retorno estando abaixo do esperando em 2015, a empresa continuará investindo na qualidade das produções, acreditando que essa estratégia irá levar à expansão. Desejo sinceramente que assim seja.

Depois de tudo isso, dá até pra pensar que as propostas de limitação da banda larga no Brasil não só mais um ato em favor do lucro das grandes empresas, como sem dúvida é. Provavelmente haja também por trás a sensação dos detentores do poder de que a internet está dando poder, senso crítico e variedade acima do que eles desejariam a um público pastoreado. É fácil domesticar massas quando as únicas opções de entretenimento e informação que elas possuem são canais de TV concedidos há décadas a famílias ricas; com a expansão barata e vertiginosa dos downloads e do streaming na internet, esse poder está aos poucos saindo da mão dos poderosos. E eles definitivamente não querem isso.

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